Nesta semana, tive a imensa satisfação intelectual e afetiva de ler a obra Heranças de Negros, do escritor e conterrâneo Luiz Bernardino — carinhosamente conhecido em nossa terra como Luiz de Daguia de Julião —, hoje radicado no Estado do Pará.
Diferente da minha trajetória acadêmica mais tardia na historiografia regional, Luiz abraçou a vocação literária e memorialística ainda jovem, debruçando-se com sensibilidade e pioneirismo sobre os fatos que marcaram a nossa gente. Sua pena já registrou passagens memoráveis da nossa história social: retratou as agruras e a resiliência sertaneja nas frentes de trabalho durante a seca em O Sertão Está se Acabando (1970); verteu em testemunho a dor familiar e a violência urbana em Recordações do Padeiro Manoel (1981), em memória ao irmão barbaramente assassinado em João Pessoa; e investigou os caminhos da diáspora e da saudade em Por que Fui Embora.
Com a publicação de Heranças de Negros, Luiz Bernardino oferece uma contribuição de valor inestimável para a historiografia de Santa Luzia. Sua obra preenche uma lacuna fundamental ao resgatar o protagonismo da população negra na formação urbana e social do município, documentando a gênese daquele que viria a ser o populoso bairro de São Sebastião.
O autor reconstitui a chegada das famílias pioneiras vindas da comunidade quilombola da Pitombeira — esteio de resistência da nossa região —, eternizando nomes fundamentais como Duda Ricarte, Firmino Roque, Inácia Doutor, entre tantos outros. Registra ainda que seu avô, Julião, ali fixou raízes erguendo sua moradia por volta de 1922.
Do ponto de vista da evolução fundiária, o relato se articula com precisão aos registros de nossa história territorial: a área onde hoje se erguem a capela e a igreja matriz de São Sebastião integrava uma das propriedades de Abdon Odilon da Nóbrega e, após seu falecimento, de sua viúva, Dona Maria da Glória Nóbrega, responsável por doar formalmente essas terras à Igreja em 1931. Anos antes, em 1924, a própria família Nóbrega já havia destinado terras na localidade a Dona Felina, mãe de José Regular, marcando os primeiros assentamentos no setor.
Ao amigo e escritor Luiz de Daguia de Julião, o nosso reconhecimento e a nossa gratidão. Que sua verve continue viva, inspirando as presentes e futuras gerações a conhecer e valorizar as verdadeiras raízes de nossa terra.
Professor José Dantas Neto







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