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Abel Coelho - Exemplo de humildade e humanidade.

Santa Luzia-PB.

Abel Coelho, um exemplo de humildade, perseverança e ausência de preconceito.

A história de Abel Coelho, pai de Newton Marinho Coelho, é um exemplo de como a humildade, a inteligência e a disposição para aprender podem transformar uma vida.

Natural de Bonito, na Zona da Mata pernambucana, Abel mudou-se ainda jovem para Recife em busca de estudos e alimentava o sonho de conhecer o mundo como marinheiro. 

De origem humilde, enfrentou dificuldades para estudar, trabalhar e até encontrar um lugar para morar. 

Sem conseguir ingressar na Escola de Aprendizes de Marinheiro, tornou-se taxista.

Foi nessa fase que conheceu um cidadão inglês, negro, com quem passou a dividir um quarto em uma pensão. 

Ao procurar uma pensão para morar, encontrou uma com a condição de dividir o espaço com alguém que ali já morava. 

A dona da pensão, iniciammente, disse a ele que tinha um problema, o quarto era dividido. Ele aceitou.

Depois ela disse que tinha outro problema, a pessoa não falava português. Ele concordou mesmo assim.

Quando ele achava que estava tudo certo, ela disse que tinha outro problema, o estrangeiro era negro. 

Para ele isso jamais seria um problema, pois não era uma pessoa preconceituosa.

Sem preconceito racial, Abel aceitou a convivência, demonstrando uma postura humana que contrastava com a discriminação tão presente naquela época. 

Sua formação moral também fora influenciada pela convivência com a prima Hermínia, uma mulher de sentimentos humanitários que protegia os escravizados de sua família.

Hermínia foi uma dessas figuras humanas que, mesmo sem conseguir mudar a estrutura escravocrata de seu tempo, fizeram a diferença na vida daqueles que sofriam sob seu domínio. 

Filha de senhores de engenho, ela se colocava corajosamente ao lado dos escravizados, enfrentando os abusos dos capitães do mato e chegando a dormir na própria senzala para impedir que fossem torturados durante a noite. 

Quando retornava de Recife nas férias, sua chegada era motivo de festa entre os escravos, que viam nela uma protetora e a esperança de dias sem castigos. 

Sua história nos lembra que, mesmo em épocas marcadas pela crueldade e pela desumanização, houve pessoas que ousaram desafiar as práticas de seu próprio meio e aliviar o sofrimento alheio

Voltando a pensão,  inteligente e determinado, Abel percebeu naquela convivência uma oportunidade de aprendizado. 

Com a ajuda de uma pessoa para intermediar a comunicação, começou a aprender inglês e, ao mesmo tempo, ensinava português ao companheiro de quarto. 

Transformou esse conhecimento em oportunidade profissional, e passou a anunciar seus serviços aos estrangeiros que chegavam ao porto de Recife, tornando-se, possivelmente, um dos primeiros taxistas bilíngues da cidade.

É importante destacar que Abel Coelho era um homem esforçado, organizado e atento às oportunidades que a vida lhe oferecia. 

Para aperfeiçoar o inglês, acompanhava o mecânico estrangeiro ao porto do Recife, onde aproveitava os momentos de manutenção dos navios para conversar com os marinheiros e praticar o idioma. 

Sua dedicação ia além do aprendizado. 

Mantinha um calendário com toda a movimentação dos navios de passageiros que atracavam no porto e, com antecedência, posicionava seu automóvel em local estratégico para receber os viajantes estrangeiros. 

Assim, conquistava clientes com facilidade, cobrava tarifas diferenciadas e recebia, geralmente, em dólares, melhorando consideravelmente sua condição financeira e social. 

Foi em uma dessas ocasiões, durante a chegada de uma pequena delegação de jovens executivos do poderoso grupo multinacional Bunge/Born, que acabara de adquirir o controle acionário da empresa Pinto Alves, então o maior conglomerado da indústria algodoeira do Nordeste brasileiro, que Abel teve contato com pessoas ligadas a um empreendimento que, posteriormente, se tornaria a Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro S.A. (SANBRA).

Ao avistarem o táxi de Abel Coelho com um aviso, em inglês, oferecendo serviços de intérprete, os jovens executivos do grupo Bunge/Born imediatamente o procuraram. 

Como todos visitavam Recife pela primeira vez e não falavam português, encontraram em Abel o profissional ideal para acompanhá-los nos primeiros contatos com a capital pernambucana. 

Mais uma vez, o conhecimento adquirido com esforço e perseverança abriu portas para o jovem, que soube transformar uma habilidade conquistada por iniciativa própria em uma oportunidade de crescimento profissional.

Por tanto, o domínio do idioma abriu-lhe as portas para trabalhar em uma empresa internacional, oportunidade que o trouxe a Santa Luzia-PB, onde contribuiu para o desenvolvimento da cidade.

Além de seu mérito próprio, é preciso também destacar as oportunidades que a vida lhe deu, por exemplo, a contribuição do estrangeiro negro, tão discrinado, não somente naquela época, mas, infelizmente, discriminado até os dias de hoje.

A trajetória de Abel, relatada no livro "Memórias da Minha Aldeia", deixa uma lição importante. 

Não devemos medir ninguém pela origem humilde, pela aparência ou pela condição social. 

Muitas vezes, são justamente as pessoas que enfrentaram as maiores dificuldades que nos oferecem os mais valiosos exemplos de dignidade, inteligência e superação.

Abel Coelho foi um homem que soube transformar obstáculos em oportunidades, sem permitir que o preconceito limitasse sua visão de mundo. 

Sua história merece ser conhecida e respeitada.

Henrique Melo - Rede Sertão PB

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